Estive lendo um texto que era algo como “não consegue arrumar namorado (a), veja o que os especialistas têm a dizer”. Em meio ao texto, eram citados vários especialistas de grandes universidades de grandes cidades de grandes países – tudo grande, ficou claro? Já tinha visto de tudo. Já vi sujeitos formados em Letras, podendo falar sobre linguagem e comunicação. Especialistas em moda, podendo ditar tendências. Doutores em história, narrando como as coisas aconteceram. Licenciados em biologia, ditando a lógica “natural das coisas”. Enfim, sujeitos formados em determinadas áreas do conhecimento falando sobre objetos que interessam a essa área.
Contudo, especialista em relacionamento é algo novo para mim. Na verdade, se nos embasarmos em Foucault, é tudo muito estranho: precisamos passar por rituais e por diversas “lapidações” até que, finalmente, podemos receber o título ou o carimbo para poder proferir verdades daquela área. Ou seja, você não cria nada, apenas fica papagaiando – e, mesmo assim, é respeitado e aplaudido. Bem, apesar de tudo isso ser estranho, penso que “especialista em relacionamento” tenha batido o recorde de excentricidade. Como pode alguém ser especialista nisso?
Academicamente, tal especialista passou por mesmos processos das outras áreas. Mas, diga-me se não seria mais interessante se os critérios para considerar alguém especialista em relacionamento fossem mais práticos: ter se casado, pelo menos, três vezes (e separado por vontade própria, claro); ter atestado, por parte dos antigos cônjuges que, durante a madrugada, eram mestres em levantar para olhar o nenê; ou que eram mestres na arte do eterno flerte e/ou eterna arte de saber que a conquista é algo nunca conquistado; atestado que eram bons em ouvir críticas, aprendiam com elas; blá-blá-blá; enfim, acho que os critérios para nomear alguém “especialista em relacionamento” deveriam ser mais práticos.
Se fossem esses os critérios, na verdade, todos nós seríamos meio especialistas
Na verdade, parando com as brincadeiras, pergunto: como alguém pode ser especialista nisso em termos gerais, ou seja, em relacionamentos
Bem que já dizia o poeta (não lembro qual) que, se conseguíssemos enxergar as coisas nuas e cruas elas seriam, em primeiro lugar, engraçadas. Bem, ao menos, eu acho engraçado. E penso, ainda, que achar engraçado as normas que circulam em nossa sociedade seja um jeito de nos “desassujeitarmos”, libertarmo-nos delas. Como diria Foucault: fazer as verdades se confessarem, confessarem que não tem fundamento nenhum. Adoro dar risada na cara das verdades. E por isso admiro tanto os comediantes: eles conseguem perceber as pequenas coisas ridículas em nossa sociedade (ou a própria sociedade ridícula).
Há, ao nosso redor, o tempo todo, por todos os meios, orais ou escritos, verdades circulando. Verdades que fragmentam e fazem uma quebra entre o que é certo e o que é errado (não verdades naturais, verdades criadas, claro). Normas. Normatizações. Etiquetas. Coisas como: “ser uma boa mulher ou um bom homem é ser ______”, “ser uma pessoa livre significa _____”, “para ser verdadeiramente um cidadão é preciso _______”, “ser uma pessoa resolvida ou madura é ser _______”, “para ser um verdadeiro machão latino você tem ______”, “uma verdadeira bicha louca tem que ______” – e, claro, como não poderia faltar, o tema que moveu este texto – “para não ser alguém encalhado e/ou solteiro, você tem que ______”.
Enfim, das várias formas que temos para completar essas lacunas, não importa, todas são verdades já construídas. E elas nos atingem, quer queiramos ou não. Se as fizemos “se confessarem”, estamos, ao menos, sendo menos passivos nessa coisa louca que se chama SER.
Jeice Campregher (não aceite imitações)
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