quinta-feira, 2 de setembro de 2010

O poder do Discurso: produzir a diferença.

Finalmente consigo atualizar o blog pessoafucoteando com algo escrito por mim. Espero que alguém se interesse. Começo perguntando: Já assistiram Terráqueos? Já assistiram A Carne é fraca? Já assistiram Racismo: a história (produzido pela BBC)? O que eles tem em comum?

Quanto aos dois primeiros, é possível fazer aproximações mais facilmente. Terráqueos, ao meu ver, mostra como todos nós, todos os seres que habitam este planeta são/somos terráqueos. Mostra, ainda, como nós humanos estamos acostumados a associar “terráqueos” somente com nossa existência – a forma de vida chamada humana. O documentário mostra que isso é um engano. E vai além. Mostra como nós terráqueos humanos fazemos uso de outros terráqueos, sem pena, sem ética, sem limites, sem hesitações – como se todos os outros terráqueos fossem coisa e propriedade do superterráqueo, o homem. Esses usos são mostrados a sangue frio, sem discursinhos suavizadores – afinal, todos temos justificativas para continuar a comer carne, a continuar a vestir couro, a continuar com práticas como tourada e rodeio. Enfim, sempre há discursos para continuarmos em nossa zona de conforto, enunciados aos montes para justificarmos nossos prazeres. Em resumo, o documentário Terráqueos põe em xeque a supremacia do homem e promove um tremendo susto em quem nunca havia pensado nos outros seres vivos como outros terráqueos – com direito à vida, como nós humanos temos. Quem se nega a assistir, a meu ver, se nega a pensar sobre o lugar onde vive, sobre sua própria existência e sobre seu lugar em relação ao Todo. Quem foge, quem nega a si a chance de se abrir para outras perspectivas, a meu ver, deveria pedir: pare o mundo porque eu quero descer. Quem está aqui tem o compromisso ético com o planeta e com a existência.

O documentário A carne é fraca vai mais para o lado da alimentação, do vegetarianismo, de apresentar razões para não comermos carne (opa, deixa eu trocar essa palavra “carne”, que dissimula, suaviza a real que é “comer outros terráqueos, comer outros seres, comer seres que não fazem mal algum ao ser humano ou, pelo contrário, fazem muito bem, como as vaquinhas que dão leite a vida toda e, no final da vida, são comidas” – o ser humano é muito ético mesmo, sabe ser grato). Enfim, os dois documentários citados se ligam mais facilmente: falam dos animais e da posição de supremacia que o humano assumiu ao longo da história.

Agora o terceiro é um pouco mais difícil fazer a ligação automaticamente. Vou ver se consigo expor a ligação que vejo. Como parte da comemoração do bicentenário da Lei de Abolição ao Tráfico de Escravos (1807), a BBC, dentro da chamada "Abolition Season", exibiu uma série composta por três episódios, independentes entre si, abordando a história e os aspectos do racismo pelo mundo. São eles: "A Cor do Dinheiro", "Impactos Fatais" e "Um Legado Selvagem". O episódio que vi foi “Impactos Fatais”, que fala de como o homem foi/é o lobo do homem. Mostrou como na história da humanidade podemos observar humanos construindo discursos sobre si, colocando-se como superiores e, ainda, construindo o outro, o diferente, o menos “belo”, o estranho, o de cor diferente, enfim, como inferior, como objeto de saber – um objeto que nós (brancos, puros, inteligentes) podemos conhecer, podemos, sobre eles, emitir juízo de valor. Sempre que a ciência se debruça sobre um objeto do saber, sinto dizer aos iludidos: ela não o descobre, ela o constrói. Quando os homens se puseram a falar, a definir, a qualificar/desqualificar, a emitir um discurso com status de verdade acerca de outros humanos, estes foram colocados à disposição daqueles. Já ouviram falar em Darwinistas Sociais? Utilizaram a teoria da evolução de Darwin para afirmar que: quando uma raça perde para outra (ou um grupo com certas características perde para outro, com outras), isso é algo natural, é porque existe a lei do mais forte. E, com isso, ninguém mexia nada para preservar as raças, os grupos que foram exterminados em nossa história. Por conta dos Darwinistas Sociais e, também, dos eugenistas (quando descobri, neste documentário, de Bernard Shaw era um eugenista, fiquei profundamente decepcionada) muitos massacres foram legitimados. Os eugenistas procuravam mecanismos para branquear as populações, acreditavam que, quanto mais branco, mais pura a raça seria – lembram de Hitler? Lembram da política de branqueamento que trouxe italianos e alemães para o Brasil? A ideia de fundo era a mesma.

Tá, mas, o que esse último documentário tem a ver com o primeiro? Talvez o leitor já tenha feito a associação. Os vegetarianos certamente já o fizeram. O mesmo poder que o discurso tem de diferenciar os humanos, de fazer com que uns sejam mais, melhores, mais puros que outros, enfim, esse mesmo poder que o discurso tem, também pode ser observado quando nós humanos produzimos discursividades acerca dos animais. Lembrando que não os conhecemos, jamais conhecemos um objeto do discurso, nós o construímos – assim como construímos o que os negros foram/são, assim como construímos o que o louco é, assim como produzimos discursos sobre a sexualidade, assim como produzimos discursos sobre alunos/jovens/crianças/adolescentes, enfim, da mesma forma produzimos discursos sobre os animais. Se construímos discursividades com relação a quem podia falar (negros, escravos, gays, pobres, população de países sub-desenvolvidos, índios, mulheres, homens...), imaginemos a facilidade de construir discursividades acerca de quem não pode falar (animais). Toda uma discursividade a serviço de empresas que lucram incrivelmente com esse mercado carnívoro, com emissoras que lucram com a propaganda, com a moda que lucra com o couro – acha que vai ver o discurso vegetariano em qualquer lugar? Acha que tal discurso tem meios para infiltrar em todos os lugares? Não, para esse discurso sobram lugares alternativos: sites, blogs – vindo de gente que não vai perder nada com isso.

Tenho pavor de Darwin, acho que foi o primeiro a começar com essa ideia de evolução – só a palavra “evolução” já presta um desserviço: traz a ideia de que o último a ser formado nessa cadeia evolutiva, ou seja, o humano, é o melhor, é o mais evoluído, é o que se aproxima mais da perfeição; logo, se somos o topo, todos os outros terráqueos ficaram no meio do caminho. Já notaram que colocamos o macaco como uma das espécies mais inteligentes? Será que isso não se deve ao “fato” de ela vir logo antes da gente na tal cadeia? (outra forma de nós nos auto-elogiarmos). Ai, minha nossa, por isso adoro a frase de Pessoa: “pobre vaidade de carne e osso chamada homem”. Muito do que criamos é para alimentar nosso ego.

Voltando ao assunto, depois de Darwin, o segundo que tenho mais pavor é Descartes, com o “penso logo existo”. Estava aí instaurado o império do pensar: a ideia de que o pensar é o que nós distingue das outras espécies, só o homem pensa – e oh, como é superior ter a capacidade superiora de pensar de forma superior (todas as hipérboles e pleonasmos não são o bastante para descrever o quanto nos achamos superiores por pensar, oh, pensar! Que lindo pensar!). Tenho horror a essa supremacia de achar que pensamos. Quem disse que os animais não pensam? Qual a metodologia utilizada para chegar a essa conclusão? Eles pensam sobre outras coisas, oras! Pensam em comida, pensam em sobrevivência. Não pensam em formas de ostentação, formas de conseguir o que não se precisa, formas de como ter mais e mais e mais.

Nós pensamos na preservação de “me, myself and I”, ou da família, ou dos mais semelhantes (do nosso grupinho). Mas não pensamos no planeta enquanto morada e que, sem ela, estamos lascados. Não pensar nisso é não pensar, sorry.

Mas, não comer carne ajuda tanto assim? Sério? Ajuda realmente à preservação do planeta? Respondo: pesquise, veja os dois documentários citados. Veja outros. Esses dias via um documentário sobre a água que, nas considerações finais, falava algo como: carnívoros insaciáveis são grandes responsáveis pela aceleração no efeito estufa (pelos puns que os bovinos soltam). Nem esperava ver nada sobre consumo de carne naquele documentário, mas apareceu. É só estar atento e unir os pontos.

Não comer carne é o menor “sacrifício” que você poderia fazer. Se não consegue abrir mão de um prazer que sua língua dá a você, filho(a), então, acho que você não é capaz de fazer nada – esse é o menor dos esforços necessários, tenha certeza. Se não conseguir algo assim, então, o dia que a humanidade tiver que abrir mão de sistema de esgoto (jogar dejetos em água doce – que deveria ser só para beber), abrir mão de toda ou quase toda energia elétrica, abrir mão de consumo descabido de roupas; se esse dia chegar, acho que vai haver um suicídio em massa, pois ninguém vai conseguir abrir mão desses prazeres.

Para não estender muito. Só quis mostrar documentários que apresentam o poder que o discurso promove (efeito de poder, diria Foucault). De humanos com relação a outros, de humanos com relação a outras espécies, enfim, um sujeito que sabe/conhece e outro é que conhecido/objeto.

Também estou produzindo ou reforçando discursividades – não que meu texto seja livre disso, seja neutro, não tenha ideais. Ele também esta a serviço de algo. Mas me alegra saber que não está a serviço de lucro e ostentação. Penso ou desejo que ele esteja a serviço de uma existência mais ética, de mais respeito a tudo o que é vivo – em nome também da preservação de nós mesmos. Quanto a isso, temos muito o que aprender com os orientais, com o budismo, com o hinduísmo, enfim, com discursividades que saem, que pulam fora da ideia de humanos como seres superiores, mais inteligentes, mais evoluídos. Penso que seja a hora de aprendermos com discursividades que buscam uma comunhão do homem com a breve experiência que se chama vida e com tudo o que vive. Nenhuma vida vale mais que outra. Afinal, como diria Fernando Pessoa: “Toda a energia é a mesma e toda a natureza é o mesmo... A seiva da seiva das árvores é a mesma energia [...] A mesma seiva vos enche, a mesma seiva vos torna, A mesma coisa sois, e o resto é por fora e falso [...]”.

Jeice Campregher

P.S.: Sugiro que comecem pelo filme A carne é fraca. Porque Terráqueos, tirando a parte um no youtube, que é belíssima, é o pior filme de terror que eu já vi. Filmes de terror Chinês ou de hollywood para quê? Todos os dias o homem promove, em seus abatedouros, as piores cenas de terror! Vai se negar a ver? Vai se negar a ver o que sua alimentação ajuda a promover? Conscientize-se! Fechar os olhos não ajuda em nada. Seu consumo estimula a produção/morte/dor. Todo comércio é movido por demanda.

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