Ode: lembrando-me das aulas de Literatura, pode-se dizer que é homenagem. Este texto, portanto, é uma homenagem à capacidade de se posicionar. Acho que, hoje em dia, muitas pessoas andam perdendo essa capacidade em suas vidas diárias. Principalmente em seus relacionamentos (mais) íntimos.
Penso que eu tenha passado a apreciar essa postura por conviver num meio em que, essa habilidade/capacidade é questão de sobrevivência. No meio acadêmico, para quem faz pesquisa, ou você sabe se posicionar, firmar-se em uma teoria, ou você não tem futuro. Em outras palavras: você não passa seriedade. Na vida diária, claro que seria abusivo querer que alguém cite a fonte que embasou uma ação, uma não-ação ou algum dizer. Contudo, ainda acho adequado saber dizer algo mais consistente do que “fi-lo porque qui-lo” (fiz isso porque quis isso).
Ao mesmo tempo em que me ponho a favor da capacidade de se posicionar (olha eu mesma, neste texto, posicionando-me), escancaro meu terror para com o uso da ironia. Ironia é um jeito muito fraco de (tentar) mostrar força ou alguma superioridade. Ser irônico (a) com coisas, com idéias, enfim, ser irônico (a) com regras/normatizações que os homens impõem a eles mesmos, ok, ainda vai. Isso tem lá sua relevância social, moral e antropológica (estou fazendo piada, ok?! Estou “hiperbolando”: utilizando a hipérbole). Por outro lado, ser irônico (a) com pessoas, é muita covardia. Por quê? Bem, porque difícil mesmo é não ser irônico. Difícil é dizer o que pensa sem figuras de linguagem: sem eufemismos, sem metáforas, sem metonímias e, claro, sem a sacana da ironia.
Um aviso aos irônicos: ironia não passa respeito. O que passa respeito é olho nos olhos. É explicar seu posicionamento com frases completas. É mostrar que consegue defender seus pontos de vista sem apelação. É expressar o que sente e pensa com a linguagem/sinceridade do coração. Isso sim passa respeito. Quem usa de ironia raramente consegue, sequer, olhar nos olhos. Aí está outra prova que ironia é para gente cagona.
Imagino que parte dos irônicos nem sabe que assim são. Virou mania. Virou hábito. Usam e nem se dão conta. E, dessa forma, também não refletem sobre a impressão que isso causa na outra pessoa. No meu caso: vai cagando com o respeito. Não cultivo respeito por gente cagona – sejam as que demonstram através da ironia; sejam as que demonstram adiando uma conversa, uma discussão, um “dar a cara a bater”. Tem que ter muito peito para sentar ao lado e trazer à baila, provocar uma conversa sobre algo que não ficou muito bem resolvido. E resolvido não é concordância. Não quer dizer isso: na conversa pode-se chegar à conclusão de que não há concordância. E daí? Isso é algo natural. O importante é a conversa em si: nela, ambas as pessoas se conheceram melhor. Aproximam-se, em vez de se afastarem.
OK, basta de fórmulas e manuais. Acho que fugi do assunto. Só queria mostrar meu descontentamento com relação a isso. Dizer que uma relação, sem tal sinceridade, em qualquer nível, é superficial. Meus amigos, mais íntimos, sabem do que falo. Um fala do outro e tá sempre tudo bem: seu/sua fresco (a) pra cá, seu/sua lerdo (a) pra lá. Volta e meia aparece alguma frase do tipo: “você foi muito burro (a) nessa situação, por isso, por isso e por isso... vê se te cria, piá/guria”.
Caso queira mostrar que é alguém que sabe se posicionar com seriedade, fuja da ironia. Aliás, a ironia já é a falta de seriedade. É tratar alguém sem seriedade. É não levar alguém a sério. Por isso, não é de se admirar que ironia faça perder o respeito: afinal, ela própria já é falta de respeito, falta de seriedade. Alguém gosta de ser tratado ou de ver algo relevante pra si sendo tratado como piada? Duvido.
Para mim, menos sinceridade que o “Poema em linha reta” de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) não dá. Gosto de uma sinceridade escancarada. Uma sinceridade faz com que a pessoa “se confesse”, que se expresse profundamente. É dessa capacidade de se posicionar que falo: a voz íntima que se despe de todo o orgulho e que deixa fluir. Isso é o que chamaria de “revelar-se”.
Do meu ponto de vista, é esse tipo de relacionamento que é real e recíproco. Lembro da frase de Zeca Baleiro: “as vezes me preservo noutras suicido”. Se houver um no casal ou um entre dois amigos que se preserva, enquanto o outro se suicida, a incompatibilidade é certa. Acredito na prosperidade apenas em caso de “suicídio”, em caso de “dar a cara a bater”, de ser direto (a), de dizer o que sente e o que pensa. Menos que isso, não é verdadeiramente RELACIONAR-SE.
Novamente recorro ao poeta Pessoa:
“Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Como que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.”
Se o poeta estiver certo, e realmente não seja possível conhecer outra alma por dentro, então, se não pudermos conhecer os gestos e as palavras mais sinceras, conheceremos o que de outra pessoa?
Jeice Campregher

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