domingo, 7 de novembro de 2010

Afinal (poema perfeito de Pessoa)

Adoro fazer esses recortes dos poemas do Pessoa.
Pego apenas as partes que fazem sentido para mim...
Os recortes são sinalizados pelo símbolo -> [...]

Poema simplesmente perfeito!
Resumiria ele em uma frase: quanto menos me apegar numa ideia de "eu", numa casta, numa forma, mais livre eu sou para ser tudo, para ser do jeito que bem entender, para me sentir parte dessa existência: dinâmica e mutante.

Afinal, qualquer coisa aparentemente estável é apenas um "acordo de sentidos", como diria Campos no poema abaixo.

Façam bom proveito de mais uma obra de arte desse grande escritor intitulada "Afinal".


***

Afinal


Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.

Sentir tudo de todas as maneiras.

Sentir tudo excessivamente,

Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas

E toda a realidade é um excesso, uma violência,

Uma alucinação extraordinariamente nítida

Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,

O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas

Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.


Quanto mais eu sinta,

Quanto mais eu sinta como várias pessoas,

Quanto mais personalidade eu tiver,

Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,

Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,

Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,

Estiver, sentir, viver, for,

Mais possuirei a existência total do universo,

Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.

Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,

Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,

E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.


Cada alma é uma escada para Deus,

Cada alma é um corredor-Universo para Deus [...]


Sou um monte confuso de forças cheias de infinito

Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,

A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une

E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim

Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo [...]


Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo [...]


Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,

Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo

De chamas explosivas buscando Deus e queimando

A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,

A minha inteligência limitadora e gelada [...]


Dentro de mim estão presos e atados ao chao

Todos os movimentos que compõem o universo,

A fúria minuciosa e dos átomos,

A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,

A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam [...]


Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio

De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma [...]

Álvaro de Campos (heterônimo de Fernando Pessoa)

Um comentário:

  1. Muito bom.

    A VIDA
    Emile Brontë

    A vida, acredita, não é um sonho
    Tão negro quanto os sábios dizem ser.
    Frequentemente uma manhã cinzenta
    Prenuncia uma tarde agradável e soalhenta.

    Às vezes há nuvens sombrias
    Mas é apenas em certos dias;
    Se a chuvada faz as rosas florir
    Ó porquê lamentar e não sorrir?

    Rapidamente, alegremente
    As soalhentas horas da vida vão passando
    Agradecidamente, animadamente
    Goza-as enquanto vão voando.

    E quando por vezes a Morte aparece
    E consigo o que de Melhor temos desaparece?
    E quando a dor se aprofunda
    E a esperança vencida se afunda?

    Oh, mesmo então a esperança há-de renascer,
    Inconquistável, sem nunca morrer.
    Alegre com a sua asa dourada
    Suficientemente forte para nos fazer sentir bem
    Corajosamente, sem medo de nada
    Enfrenta o dia do julgamento que vem.
    Porque gloriosamente, vitoriosamente
    Pode a coragem o desespero vencer.

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